quarta-feira, setembro 01, 2004

O discreto charme da classe média

"Classe média é deprimente", dizia um amigo meu que usava muito "deprimente" e "classe média", mesmo que as expressões não estivessem juntas na mesma frase.

Concordo com ele às vezes. Mas só às vezes.

Ou alguém vai me dizer que não é a maior diversão ver sua mãe saindo de casa para encher o tanque dos dois carros (um Palio e um Corsa. Ô classe média!) para acumular pontos para o Smart Card, porque o super-cartãozinho vai acabar e só dá para acumular pontos até o dia três?

Depois que ela voltou, sentei por alguns momentos (entre uma pauta sobre bombas nucleares no Pacífico Sul e outra sobre o figurino da Malhação) e fiquei observando enquanto ela e meu pai se questionavam (na verdade, ela perguntava para ele, que não costuma se preocupar com pontos de cartões ou cupons de promoção e por isso não respondeu nada) se devia COMPRAR os pontos necessários para completar os 800 que valiam um faqueiro. É que os dois tanques cheios não haviam rendido todos os que precisava. Enquanto eu me escangalhava de rir, ela pagava 17 reais no cartão de crédito por 250 pontos. Se não tivesse feito isso, ganharia apenas um daqueles pacotes horrorosos com 6 pares de meias sem calcanhar.

Amanhã ela vai pagar o estacionamento do shopping de novo, para tentar trazer para casa um faqueirinho que vale mais do que 17 reais - mas não sei se muito mais.

Alguns anos atrás, ser classe média era pegar uma flanelinha para desembaçar o vidro do carro. Hoje em dia o lance é ficar tremendo de frio porque se diminuir o ar condicionado embaça tudo de novo.

É checar se o carro está realmente trancado todas as vezes que pára em um sinal e vê aquelas crianças magrinhas fazendo malabarismo com bolinhas de tênis com um braço dentro da blusa.

Mas também é não ter medo de sequestro ou assalto na sua casa, porque os ladrões não são burros e sabem que na sua rua mora um dono de Mac Donald e um cara que é empresário de jogadores de futebol.

É errar o caminho voltando de uma viagem e não se preocupar muito, porque seu carro é feio e velhinho, e quando você entra em um bairro esquisito as pessoas não dão muita atenção.

Talvez, o grande barato seja saber que é mesmo deprimente ser classe média. Mas considerar isso uma boa razão para rir de si mesmo enquanto calcula os juros do cheque especial e outras pobrezas do gênero.